Cinco passos para escolher a forrageira certa

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Pesquisador da Embrapa Gado de Corte comenta principais pontos que interferem na adoção de diferentes espécies ou cultivares para o pasto

9574No Brasil tropical existem mais de 100 milhões de hectares com pastagens cultivadas, mas estimativas de pastagens degradadas variam de 50 a 80% para os biomas Cerrado e Floresta Tropical. Os dados são preocupantes e as perdas por degradação são causadas por fatores relacionados às técnicas de formação e manejo.

Um bom pasto começa pelo seu correto estabelecimento e o processo se inicia com a escolha das forrageiras adaptadas ao ambiente da propriedade.

O pesquisador da Embrapa, José Alexandre Agiova da Costa, apresenta ao produtor um roteiro prático para ajudá-lo a planejar essa etapa. Abaixo, você confere transcrição do conteúdo divulgado em formato de áudio pela Embrapa:

Introdução – São quatro os requisitos básicos na formação de uma pastagem: as condições de solo e clima no local onde será estabelecido o pasto; a presença ou não de invasoras e pragas – como cupins, formigas, etc -; a espécie ou categoria animal que vai utilizar esse pasto e o grau de tecnologia que o produtor deseja. Ele quer uma pastagem altamente produtiva para fazer terminação? Ou está pensando na renovação de uma pastagem para fazer manutenção do rebanho de cria?

Condições de solo e clima – As condições edafoclimáticas são extremamente importantes, porque a base de tudo é o solo e, também, claro, as condições de clima, como, por exemplo, o índice de pluviosidade. O solo, se for plano, é uma coisa; declivoso é outra. Em solo declivoso, não usaríamos Panicum, porque ele forma touceiras mais espaçadas e deixa o solo descoberto, sujeito a erosão. Nessas condições aparecem também plantas invasoras.

Se o solo é muito pedregoso, algumas cultivares forrageiras não se adaptam. Nós poderíamos trabalhar em alguns solos no Tocantins ou na baixada cuiabana com Massai ou Andropógon, que são capins que suportam melhor essas condições de pedregosidade. Outra coisa importante é a quantidade de chuvas na região. Temos forrageiras mais e menos exigentes.

Outra questão é a distribuição da pluviosidade. O Panicum sofre mais quando a chuva é muito concentrada em um período. Então, podemos ter a pluviosidade adequada, mas ter uma frequência que não atende às necessidades. Em vez do Panicum, uma alternativa seria então a braquiária.

Presença de invasora e pragas – Antes de mais nada, é preciso fazer um combate às formigas. Estamos falando de um combate sistemático, principalmente naquele período de estabelecimento, ou seja, quando as plantas estão brotando e formando as touceiras na pastagem. Se possível, o controle de formigas deve ser feito previamente ao estabelecimento da pastagem. Temos alguns tipos de cupins que também podem ser um problema.

Em áreas que antes eram lavouras ou com plantas nativas, com brotos do Cerrado ainda bastante presentes, se for necessário fazer uma correção, o uso de grade niveladora controla bem as invasoras. Após a pastagem ser estabelecida, caso ocorra alguma infestação, é necessário fazer um novo controle.

O Panicum, por ser uma espécie que demanda mais fertilidade e por se utilizar doses de nitrogênio mais altas, é mais atacado por formigas, principalmente em locais onde os solos são um pouco mais arenosos. Eu não estou dizendo com isso que é para plantar Panicum em solo arenoso, mas existem solos mistos que têm teores de argila em torno de 30% que seriam adequados para Panicum, só que mesmo assim, por essa característica, têm grandes colônias de formigueiro que vão atacar muito essa pastagem no início e, possivelmente, após sua formação.

Espécie e categoria animal – A próxima pergunta da série deve ser sempre: para que a pastagem se destina? Se nós estamos trabalhando com equinos, que têm o hábito de pastejo bastante diferente de um bovino, nós vamos utilizar um tipo de pastagem; se é terminação de bovinos de corte, outra.

Quando a gente começa a trabalhar com áreas maiores, para  bovinos, a gente procura espécies forrageiras por semente, pela facilidade, porque existe comércio abundante, qualificação tanto da indústria forrageira quanto dos revendedores técnicos que atendem os produtores. Se eu estou trabalhando com terminação de bovinos de corte ou novilhos, eu preciso de uma espécie forrageira com valor nutricional maior, então nós poderíamos optar pela braquiária, por exemplo, como o Piatã ou o Paiaguás. E, havendo condição, trabalhar com Panicums que, mesmo em áreas menores, suporta altas taxas de lotação e tem um valor nutricional melhor, fazendo com que você tenha um resultado melhor na terminação a pasto.

Se eu estou trabalhando com rebanho de cria eu não preciso dessa forrageira tão exigente. Então, muitas vezes, fazendo aproveitamento de pastagens que já existam na propriedade, como braquiária decumbens, eu poderia fazer uma renovação da pastagem, uma adubação para recuperá-la sem precisar plantar uma outra espécie forrageira.

Se eu for adquirir semente, até pelo custo, eu poderia trabalhar, por exemplo, com capim Marandu, que é uma braquiária que combate bem as invasoras, tem rápido crescimento e um aporte nutricional indicado para manter um rebanho de cria, principalmente se nós estamos falando de zebu, Nelore, ou azebuados, como Guzerá, Tabapuã etc.

Grau de tecnologia – Outro requisito é o que o produtor espera da pastagem que foi adotada, levando em consideração as restrições do ambiente.

Se você tem um rebanho de cria e faz genética para a venda de animais você não tem muito problema com a cultivar forrageira utilizada, porque não faz uso de taxa de lotação tão alta.

Agora, para a produção intensiva de carne e no caso de quem utiliza, por exemplo, pivô de irrigação, quanto mais produtiva for essa forrageira, melhor, principalmente quando o produtor não trabalha com cria, mas com compra e venda de animais só para fazer a terminação. São situações muito comuns, compra de novilhas, por exemplo, em que é feita a compra do animal com 8, 9 @ para venda com 12, 13 @ ou até menos. Esse produtor, no caso, precisa de uma pastagem de alta produtividade. Ele compra as cabeças, passa um ciclo de um ano e meio, dois, e vende. Daí a necessidade de trabalhar com espécies forrageiras de alta tecnologia.

É interessante ainda que se tenha mais de uma espécie ou cultivar na fazenda, porque os Panicums, por exemplo, produzem bem nas águas e as braquiárias suportam mais as condições de seca.

Fonte: Embrapa Gado de Corte