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Guzerá: Um papel importante na História das Civilizações

Evidências arqueológicas e herança fenotípica convergem para fortalecer a hipótese de que a raça do semi-árido de Gujarat seja uma das mais antigas do mundo e associada aos primórdios da domestição do bovino pelo homem. guzera1

Cinco mil anos não são cinco décadas. Seria de fato a raça guzerá a mais antiga das hoje preservadas e selecionadas? Uma resposta acurada para esta pergunta fica para os especialistas, que cada vez mais dispõem de novas e eficientes ferramentas de pesquisa.

A antiguidade de uma raça enquanto grupo genético sem dúvida assume grande importância e não é sem motivo que muitas associações de criadores, quando têm elementos para isso, destacam a antiguidade da raça que criam.
A antiguidade está relacionada à homozigoze, ao que chamamos de “pureza racial” e, de certa forma, às qualidades inerentes a uma raça. Quanto mais séculos de isolamento e endogamia (cruzamento dentro do grupo) tem uma raça ou ecótipo, desde que a interferência do homem não tenha sido negativa, em tese, mais saudável e resistente serão seus representantes naquele ambiente (clima, solo, etc) em que foram plasmados.

Onde surgiu pela primeira vez a domesticação de bovinos? As primeiras domesticações de animais de produção teriam surgido entre o Egito e a Mesopotâmia, em torno de 5 a 7 mil AC ou mesmo antes. Defendem os especialistas que o jumento, as cabras e as ovelhas inauguram essa lista. A importância desse fato foi extraordinária e, para alguns estudiosos, tão essencial como a domesticação de plantas – o advento da agricultura – o que explica, em grande parte, o motivo dessas culturas antigas terem atingido um desenvolvimento notável, ou, melhor dito, terem se distinguido tanto de outros grupamentos humanos.

LACUNAS
guzera2Sobre a Mesopotâmia e o Egito, temos uma informação relativamente grande, até porque a escrita dessas civilizações é inteligível ao homem moderno. Além disso, há traço contínuo de transmissão cultural e notícia histórica sobre essas culturas, fato que já não ocorre com a antiguidade indiana.
Sobre a civilização indiana do Indus, sabe-se ainda muito pouco. Sua escrita de mais de 230 caracteres, por exemplo, até hoje não foi decifrada. Além disso, por volta do ano 1800 AC, algum fator ainda desconhecido provoca o colapso da civilização dos Indus e as fontes históricas “secam” pelos quase mil anos seguintes. Mas sabemos o suficiente para suspeitar fortemente que desde cedo já domesticavam o boi e o búfalo. Que boi? Um guzerá? A partir de quando? Não sabemos precisamente, mas é possível que antes de 3.000 AC. No “Crescente Férti” também não é preciso o momento em que os bovinos foram domesticados.

LIMITES

O fato é que a civilização dos Indus se extendia por todo o oeste da Índia, inclusive a atual província de Gujarat, berço do zebu azulego. Lothal, um sítio arqueológico importante ao sul de Ahmedabad, sabe-se hoje, foi um porto e centro comercial destacado da civilização do Indus, que está mais que comprovado, mantinha comércio marítimo com uma vasta região que ia pelo menos do sul da Índia ao Golfo Pérsico e Mesopotâmia.
Os especialistas não têm mais dúvidas: o ouro que ornava jóias da Mesopotâmia tinha origem em Karnataka, no sul da Índia. O lapisazuli vinha de uma jazid no atual Afeganistão. Portanto fantástico mas não surpreendente: uma peça cerâmica de cerca de 2.500 AC, retratando um boi guzerá, foi encontrada no sítio arqueológico de Ur, uma cidade mesopotâmia (Suméria), no sul do atual Iraque.

Bem, as imagens de bovinos na artemesopotâmica, aliás, bastante comuns, mostram quase que invariavelmente um animal com formas de chifres (em lira, para cima) e de crânio muito próximas das do Guz
erá. É certo que esses animais não mostram o cupim pleno do zebu, além de orelhas mais curtas e chifres mais finos. Importa lembrar, porém, que, enquanto a Índia tem um clima quente, mesmos nas faixas de latitude sub-tropical, a Mesopotâmia já se mostra mais temperada. Não seria gracioso especular, em resumo, que os bovinos de tipo taurino mas com chifres em lira de toda a região que se extende do Oriente Médio até o sudoeste europeu possam ter uma influência de touros guzerá importados da Índia na Antiguidade. Está nas várzeas do Iraque até hoje o búfalo indiano, e é possível que sua introdução remonte à época aqui tratada. O búfalo teria passado por seus processos próprios de adaptação já que não havia búfalos de clima temperado para cruzamentos, enquanto que o Guzerá exportado para a Mesopotâmia encontrou tipguzera3os nativos já adaptados da mesma espécie para cruzar e transmitir seus gens.

INFLUÊNCIA
A existência de raças azebuadas, francamente guzeratada, no sul da Penísula Arábica e no Leste da África, segundo sempre se acreditou, se deve a exportação indianas através da navegação do oceano índico em períodos mais recentes, correspondentes à fase da Idade Média europeia. Mas, agora, se considera a hipótese de essa expansão do guzerá ter ocorrido muito antes.

E essa expansão teria se dado não apenas na direção oeste, mas também para leste, atingindo outras regiões da Índia. Os especialistas não negam a influência do guzerá em raças típicas do centro-norte da Índia, como haryana, a kenhwari e outras. Também algumas raças do sul da Índia, como a kangayan, de pelagem mais azulega e chifres mais grossos, poderiam ser herdeiras desse possível comércio de reprodutores oriundos de Gujarat desde a antiguidade.
Os bens conhecidos primeiros trabalhos zootécnicos modernos sobre o zebu, assim como o conhecimento tradicional indiano falam do Guzerá como raça usada no melhoramento e formação de outras raças no próprio subcontinente indiano.
O que está para ser melhor conhecido, a partir das insinuantes evidências, é o uso do Guzerá no Oriente Médio, especialmente na Mesopotâmia e sul da Península Arábica, e também na formação de tipos zebu da África.

Eduardo Almeida